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Réstias do Tempo BEYOND

Esconder quem somos sugere sempre contas por ajustar com o passado.

Réstias do Tempo BEYOND

Esconder quem somos sugere sempre contas por ajustar com o passado.

Ditados da Província

DITADOS DA PROVÍNCIA

Assobiar aos bois da lavoura na minha terra para eles beberem água era um sério cuidado a ter com os animais para que ficassem bem saciados.

Daí o ditado local: “Não preciso que me assobiem para beber água”.

Que é como quem diz: Muita gente a fazer barulho não me convence… Nem lá perto. Pelo contrário. Isto é: Penso pela minha cabeça.

Muito barulho, muito papel de jornal, muita conversa e televisão, uma coisa é certa: Tudo o que seja verdade ou valha a pena está noutro lado.

Foi por isso que eu deixei passar ao lado as falências dos bancos, os Ricardos Salgados, afins e similares. Ao contrário de 99% dos votantes deste país que a rondar o analfabetismo entendem de política ao mais alto nível, eu não percebo nada de economia nem gosto de falar do que não sei.

Mas entendo de gestão. Aprendi com a experiência, a única maneira válida de se aprender a gerir uma empresa, a nossa casa, seja o que for.

Aprendi, por exemplo, que o termo “Falência fraudulenta“, tão ao gosto de alguma gente, tem sido uma das frases mais corrosivas do português, cujo significado, quando intencional, como foi o caso, tem sido tanto ou mais devastador como o foi a destruição do ensino português.

Percebi isso quando resolvi ser empresário. Acontece aos melhores. Mas não há nada como conhecer as coisas para não se falar por ouvir dizer.

Percebi que pouco importa que a empresa seja grande, que tenha centenas de postos de trabalho, ou uma tasca ao virar da esquina, o sustento do idoso taberneiro e da mulher. Não interessa. É um agente económico, tem de ser destruído. Criam-se impostos, “obrigações sociais” incomportáveis para alimentar a camarinha lambe botas e os polidores de esquinas… sucedem-se as greves, as fábricas deixam de produzir, deixa de haver dinheiro para o essencial, as casas comerciais fecham as portas. É a fome.

Ninguém quer isto. As dificuldades são comuns ao pequeno merceeiro que, contudo, por amor próprio, prefere aguentar a fechar a porta. O industrial nem quer ouvir falar em falências: Renegociar empréstimos nos bancos até dias melhores é uma coisa, abrir falência e prescindir do prestígio local, das vantagens que daí lhe advêm,  é outra muito diferente.

Por todas as razões e mais uma, ninguém neste mundo em seu perfeito juízo renuncia à gerência de uma empresa, embora com as maiores dificuldades, pela opção de ter de a fechar por falência. Só quem não sabe o que diz.

Aprendi, por exemplo, que há milhares de “honestos” cidadãos incapazes de gerir uma capoeira, mas que não têm duvidas nenhumas em condenar o vizinho da mercearia ao lado da porta, a quem devem anos de calotes, por este ter sido obrigado a fechar a porta por mau negócio.

Aprendi, por exemplo que, se a culpa de um mau negócio pode ser de muita gente, raramente é de quem mais lhe sofre as consequências.

Só o espectro de uma falência é uma coisa medonha. Não faço a menor ideia do que seja uma “falência fraudulenta”. Nem quero saber.

E duvido muito que tenham sido assim tantas cá na nossa terra as “falências fraudulentas” como por aí tanto se tem apregoado.  

Aniceto Carvalho