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Réstias do Tempo - Blogmaster

Esconder quem somos sugere sempre contas por ajustar com o passado.

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Esconder quem somos sugere sempre contas por ajustar com o passado.

Margens do Zambeze

JetRanger do GPZ, crédito de José Carlos Páscoa, na fotografia

(GPZ71)Jetranger2.JPG

Voar com o Prazeres - 1970

(Para quem o conheceu ou conhece).

Voar com o Prazeres era engraçado... era sempre uma aventura mesmo que não houvesse aventura nenhuma. Um simples e corriqueiro voo de Tripacer de Tete para o Songo era um festival. 

Terminada na Beira a montagem dos cinco helicópteros recebidos dos Estados Unidos, eu tinha acabado de chegar a Tete com o último 47. Fui à casa de banho, quando regressei tinha um JetRanger à porta do hangar a trabalhar pronto para sair, o Prazeres à minha espera.

- Vamos para a Chicoa... o Aniceto vem comigo - disse ele.

Fim de tarde… a noite a cair no horizonte. Eu nunca tinha estado na Chicoa, sabia apenas que era mais de uma hora de voo.

Pensei: “Onde é que este maduro irá a esta hora?”

O Prazeres tinha feito uns voos na Bell, tinha trazido os três helicópteros da Beira, com meia dúzia de horas era o maior em JetRanger.

Voar ao encontro de condições meteorológicas desconhecidas ao cair da noite a uma hora de voo, um piloto e um mecânico sem experiência no aparelho, que mais era preciso para um arrepio? Logo se veria.

Na passagem pelo Songo, embora as réstias de claridade por cima dos montes à distância, era noite. Logo a seguir, ultrapassadas as instalações da ZANCO, com as primeiras gotas de água a martelar nos vidros... pelo fogo de artifício mais à frente adivinhava-se festa rija. E lá estava o arraial: Ventos cruzados, ascendentes, descendentes, nuvens negras, bátegas de chuva, relâmpagos por todo o lado a rasgar a borrasca, a iluminar as fragas. Nada de pânico, nem medo. Apenas atenção e olhos bem abertos. A descontracção do Prazeres era agora concentração e mão firme. Bastante complicado! Noite escura, tempestade, um helicóptero ligeiro limitado de ajudas, condições atmosféricas do pior... por baixo, montes e vales, escarpas, a garganta da futura barragem escancarada, lá no fundo o Zambeze em turbilhão.

Servo-comandos, claro. Sem esse precioso auxiliar dos comandos de voo, foi por uma unha negra que, por muito menos, não fiquei no Mar da Palha uns onze ou doze anos antes num dos primeiros Alouette II.

A voar com o Prazeres fiquei vacinado. Percebi desde essa altura que nada faria cair um helicóptero ou avião nas suas mãos.

Mas ainda não tinha acabado.

Chegámos à Chicoa, com a fraca iluminação de umas luzes amareladas, aterrámos no meio do aquartelamento ali estacionado. O Prazeres conhecia bem aquilo. Fiz o que tinha fazer, logo depois encontrei-me com ele.

- Partimos o fio de telefone do acampamento... aterrámos-lhe com os patins mesmo em cima - disse ele com a maior tranquilidade.

Não liguei nenhuma. Nem sequer me passou pela cabeça na altura que se tivéssemos pousado uns metros mais à frente certamente teríamos ficado por ali a apanhar bonés com o fio do telefone enrolado no rotor de cauda.

É assim... Alguns malham logo à primeira.

Aniceto Carvalho