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Réstias do Tempo - Blogmaster

Esconder quem somos sugere sempre contas por ajustar com o passado.

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No Songo com Silgado Teixeira

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Como Vila Cabral nas margens do lago Niassa, Vila Pery na capital do Chimoio, em Moçambique, Negage, no planalto do Congo Português ou Sá da Bandeira na Huíla, na Costa do Atlântico, com temperaturas normais a rondar os 20 graus, a pedir um cobertor leve uma noite por outra e o botão da camisa aberto nos dias mais quentes, sem intempéries nem diferenças climatéricas excessivas, o planalto do Songo era um oásis primaveril.

Era ali a “cidade” do Songo, nascida com a construção da Cabora Bassa, a dois passos da barragem, a uma hora de voo de Tete, no alto Zambeze.
Duas “cidades” numa só: De um lado a ZAMCO, a empresa de construção da barragem, do outro, os Serviços de Fiscalização da obra dependentes do Gabinete do Plano do Zambeze.
Os Serviços Regionais de Estudo e Planeamento, que superentendia toda a bacia do Zambeze, (área maior que Portugal), por assim dizer o quartel general do Gabinete do Plano do Zambeze eram em Tete, naturalmente eram em Tete os inúmeros serviços, entre eles os de Aviação.
Tínhamos nos Serviços de Aviação sete aviões ligeiros, de 5/6 lugares, e cinco helicópteros, prontos a voar, normalmente cerca de oito pilotos e oito mecânicos que iam a todas... Era tão comum saltar de um avião que acabava de chegar da Beira para entrar num helicóptero para o Songo com a tarde a cair assustadoramente, como abandonar um baile no Aeroclube às dez da noite para ir buscar uma parturiente negra a duas horas de voo com o reflexo da Lua no Zambeze como referência de navegação.
Nós, os dos Serviços de Aviação, éramos de todo o lado.
Éramos do Songo como se tivéssemos lá nascido.
O Songo era extraordinário. No Songo, do engenheiro aos servente, toda a gente parecia estar de bem consigo mesmo e com o mundo inteiro.
No Songo não havia polícia, GNR, nada de autoridade.
No Songo comia-se e bebia-se divinamente.
Saímos do almoço bem dispostos e satisfeitos da vida, o Silgado Teixeira saltou para os comandos do Tripacer.
- Vamos fazer umas piruetas.
E assim foi. Em cerca de meia hora o pequeno mono-motor de asa alta só não se escangalhou todo porque aquilo não era feito para partir.
Aterrámos, o Chichorro estava à nossa espera. Agente técnico dos nossos Serviços de Fiscalização, o Chichorro era também piloto de aeroclube.
Estava doido de entusiasmado com a exibição do Teixeira.
Pediu ao Teixeira para o deixar voar no Tripacer.
Talvez porque oficialmente o Chichorro não podia voar num avião do GPZ, o Teixeira não lho permitiu. Graças a Deus... penso ainda hoje.

O Chichorro ia matar-se quase de certeza.
Aniceto Carvalho