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Réstias do Tempo - Blogmaster

Esconder quem somos sugere sempre contas por ajustar com o passado.

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Esconder quem somos sugere sempre contas por ajustar com o passado.

Vinhas do Mar da Palha

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Meados de 1957: Alferes Queiroz, piloto; ao lado, técnico instrutor francês, Mesnard; atrás, tenente engenheiro aeronáuto, Belo.

Nos anos 50 do Século XX, os limites externos para o Samouco da Base Aérea 6 ficavam bastante aquém da actual vedação que separa a unidade da Força Aérea e a povoação. A faixa de terras que atravessava a península, do cais do Samouco ao Seixalinho, era de pequenas fazendas agrícolas, árvores de fruto e vinha abundante do então famoso tintol da localidade.
Salvo uns cachos de uvas e umas taleigas de damascos que por vezes sumiam nas tenebrosas noites do Mar da Palha, vivia-se tranquilamente, paredes meias, militares e civis.
Foi então que, com a chegada do primeiro helicóptero Alouette II à Base Aérea 6 em meados de 1957, e mais dois em Janeiro seguinte, começou a constar por ali que os fazendeiros do Samouco andavam a engendrar uma ratoeira para apanhar o “estranho passaroco” que, pousa aqui pousa acolá, desconfiavam eles, lhes andava a gamar a vinha e a fruta.
Era mentira... No entanto, pensando melhor, porque não aproveitar a ideia e pendurar um gajo e um cesto no guincho… e lá do alto, com um amplo controlo visual do terreno em volta levar a “cobaia”, cá em baixo a fazer uma recolha abundante, à ganância, à larga, sem tibiezas?
A esquadra de helicópteros preparou-se. Ia retaliar:
Apenas um senão: Sabendo-se já nessa altura que qualquer coisa suspensa no guincho do helicóptero francês podia bater no chão como uma pedra em queda livre a todo o momento, há muito que ninguém da esquadra em seu juízo perfeito se arriscava a ficar feito em papas.
E foi por falta do último retoque que a coisa ficou em estudo.
Foi quando um baile na seca do bacalhau, em Alcochete, descambou num monumental arraial de porrada, que só acabou altas horas por cansaço dos contendores nos limites da Base Aérea 6.
O herói era o “Macho”. (O “Macho” tinha, realmente, cara de macho).
O “Macho”, um soldado raso, alentejano genuíno, de cepa ancestral, tinha um dom particular: Do tipo buldózer, dez reis de gente, levava tudo à frente para o lado que estivesse virado.
O capitão Albuquerque, era um velho castiço. Incapaz de negar alguma coisa a um subordinado, o oficial nunca passava sem lhe berrar aos ouvidos uma dezena de vezes que NÃO!
Não era o caso agora. O “Macho” estava a contas com o comandante da formação por causa de festival de trolha na seca do bacalhau. A fama e o vedetismo tinham-no precedido.
- Foste tu, “Macho”!… Foste tu! - Não me mintas, “Macho”! O milagre de pôr os alcochetanos da seca do bacalhau a correr por cima das águas do Tejo foste tu que o fizeste!
O “Macho” passou-se dos carretos:
- Ai a porra meu capitão!… - gritou também o “Macho” de peito cheio, de igual para igual. - Quando eu estou a dizer a verdade, não há filho da puta nenhum que me desminta!...
Foi por uma unha negra que o “Macho” não saiu pela janela para a prisão. Passada a onda de choque, e dois dias de grelha para acalmar, não se falava de outra coisa na unidade.
O episódio chegou ao pessoal dos helicópteros com fragor:
O “Macho”!!! O “Macho”, claro!!! O “Macho” era a chave…
O “Macho” não ligou. Até se sentiu lisonjeado: Ser escolhido para ir às uvas pendurado num helicóptero ou atirarem-no ao Mar da Palha num tambor de 200 litros para ele era igual.
Até ao dia em que pendurado a uns metros do chão o “Macho” viu com surpresa apontados para ele dois canos de uma caçadeira, no preciso segundo que o guincho acabava de avariar.
Lá em cima, a fazer tudo para controlar o cabo do guincho, o mecânico também tinha visto. Informou o piloto. Este, na hipótse do fazendeiro falhar o “Macho” e acertar no helicóptero, levou o manche todo à frente… O aparelho levantou a cauda, desandou, nunca mais ninguém se lembrou do “Macho” a rapar nas videiras, contra as árvores, a deixar farrapos de farda, da pele, da carne e ossos partidos pelo caminho, e um sulco na terra que um arado não fazia melhor.
Tudo acabou em bem, no entanto: O “Macho” ainda recuperou a tempo de distribuir mais uns sopapos na seca do bacalhau antes de regressar ao seu Alentejo; o agricultor aproveitou o rego deixado pelo voo rasante do alentejano para plantar mais um novo corrimão de videiras.
Aniceto Carvalho